Por Lucas Filho

A professora Edna Maria Ramos de Castro, uma das mais influentes intelectuais da Amazônia, fala nesta entrevista sobre sua trajetória e os embates teóricos em torno do conceito de desenvolvimento na região. Com quase cinco décadas dedicadas à sociologia e ao pensamento crítico sobre a Amazônia, Edna traz reflexões profundas sobre como o conhecimento é (ou deixa de ser) produzido e aplicado no território amazônico.
“A Amazônia foi inventada pela razão do desenvolvimento e pela ação do planejamento”, afirma Edna, ao recordar sua participação na obra coletiva A Invenção da Amazônia, coordenada por Armando Mendes. Ela explica que o Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea), da UFPA, nasceu nos anos 1970 numa perspectiva interdisciplinar, com a missão de pensar a Amazônia de forma crítica — missão que, segundo ela, tem sido cada vez mais tensionada por um viés técnico e ambientalista descolado da realidade social.
Graduada em Ciências Sociais pela UFPA e doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, Edna destaca que sua formação política teve origem nos movimentos estudantis e se consolidou nas lutas pela regulamentação da profissão de sociólogo. Sua inserção no Naea deu-se com o curso Fipam, o primeiro de pós-graduação em humanidades da região. “Era uma formação intensa, com professores do Brasil e do exterior, onde vivíamos praticamente uma imersão total no debate sobre o desenvolvimento”, lembra.
A pesquisadora aponta, no entanto, uma inflexão preocupante nas últimas décadas. Segundo ela, parte da academia amazônica tem sucumbido a uma lógica biologizante do discurso ambiental. “O discurso ambientalista passou a ser hegemônico, e isso empobreceu a capacidade crítica das ciências sociais sobre a Amazônia”, diz. Ela cita como exemplo a substituição da análise política por temas como manejo florestal e instrumentos legais de concessão, o que, na sua avaliação, “afasta a universidade da realidade vivida pelas populações locais”.
O embate teórico mais emblemático ocorreu nos anos 2000, quando Edna criticou publicamente o pesquisador David McGrath por defender, em entrevista à revista Veja, a ideia de um desenvolvimento “inexorável” para a Amazônia. Para Edna, esse tipo de visão ignora os conflitos sociais e reduz a complexidade regional a modelos tecnocráticos. “A Amazônia não pode ser pensada só como floresta, mas como território vivido, marcado por tensões, lutas e múltiplas identidades”, argumenta.
Edna também comenta sua produção audiovisual como forma de popularizar o debate acadêmico. Filmes como Marias da Castanha e Fronteira Carajás traduzem suas pesquisas em narrativas que abordam desde a luta por moradia até os impactos da mineração. “A arte nos permite mostrar a vida concreta dessas mulheres e trabalhadores, para além das estatísticas”, pontua.
Ao final, ela lança um alerta: “O Naea tem muito a contribuir, mas precisa se descolar do ideologismo verde e reconectar-se à empiria, à história e à crítica social”. Para Edna, só assim a Amazônia deixará de ser apenas um objeto de planejamento e voltará a ser pensada como um espaço de sujeitos, conflitos e possibilidades.
Texto original
CASTRO, E. M. R. de. Entrevista: Edna Castro. In: RIBEIRO, M. A. S. (org.). Sociologia e Política na Amazônia: saberes de fronteira. Belém: Paka-Tatu, 2023. p. 35–50.



