Discurso de Bolsonaro na ONU e o Silenciamento da Amazônia na Mídia

Texto produzido com ajuda de I.A e edição de Lucas Berredo



O estudo revela uma cobertura jornalística deficitária e alinhada aos enquadramentos oficiais, que invisibiliza os sujeitos amazônicos e fragiliza o papel social da imprensa. Em tempos de crise ambiental, mais do que nunca, a Amazônia precisa ser narrada por quem a vive.

Foto: Lucas Filho

Oartigo “Apontamentos interpretativos e jornalísticos sobre a Amazônia: o discurso de Bolsonaro na ONU” analisa o impacto do pronunciamento do então presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2020, na 75ª Assembleia Geral da ONU, e sua repercussão na imprensa nacional e, sobretudo, na mídia local da Amazônia Legal. O estudo revela que a cobertura jornalística, em vez de aprofundar ou confrontar as declarações presidenciais, reproduziu de forma acrítica o discurso, contribuindo para um processo de desinformação e apagamento das vozes amazônicas.

Na ocasião, Bolsonaro afirmou que os incêndios florestais estavam ligados à prática de subsistência de “caboclos e indígenas”, minimizando o papel do agronegócio e do desmonte das estruturas ambientais de fiscalização. “Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior”, disse o presidente, atribuindo as queimadas a “áreas já desmatadas” usadas por populações tradicionais.

O artigo, assinado por pesquisadores da UFPA e UNAMA, aponta que essa versão oficial foi acolhida por boa parte da imprensa da Amazônia Legal sem o devido contraponto. Dos 11 textos analisados, apenas três foram produzidos localmente — os demais vieram de agências de notícias e reproduziram o discurso oficial. A maioria sequer contextualizou ou confrontou dados oficiais de monitoramento ambiental, como os do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que mostravam um aumento de 12,4% nas queimadas em agosto de 2020.

“Os discursos são ‘sobre’ e não ‘da’ Amazônia”, criticam os autores. A ausência de vozes locais, como de cientistas, lideranças indígenas e populações afetadas, comprometeu a pluralidade e a qualidade da informação jornalística. A exceção veio de um editorial da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), citado pelo jornal O Liberal, que acusou Bolsonaro de mentir ao culpar os povos tradicionais pelos incêndios: “Todas as investigações, inclusive de órgãos oficiais, indicam que fazendeiros estão na origem das queimadas”.

A análise adota a Hermenêutica em Profundidade, que busca entender como as formas simbólicas — discursos e narrativas — moldam a percepção da realidade. Nesse contexto, o discurso presidencial é interpretado como ato político institucional com poder de silenciar outras vozes e reforçar estereótipos. A mídia, por sua vez, ao deixar de questionar ou aprofundar os fatos, atua como cúmplice desse silenciamento.

Além disso, o texto destaca que a Amazônia continua sendo retratada pela mídia como um espaço distante, misterioso e homogêneo, ignorando sua complexidade sociocultural e os conflitos que a atravessam. “A região é referida com importância internacional, mas esvaziada como espaço de reivindicação local”, escrevem os autores.

VERDADE EM ANÁLISE

AfirmaçãoFato ou Fake
“A floresta amazônica é úmida e não pega fogo.”Fake. Estudos mostram que, na estação seca e com desmatamento, há alta propagação de incêndios.
“Os incêndios são causados por indígenas e caboclos.”Fake. A maior parte é atribuída a grileiros, madeireiros e agronegócio, segundo IBAMA e INPE.
“O Brasil é vítima de uma campanha de desinformação internacional sobre a Amazônia.”Fake. Relatórios nacionais e internacionais apontam retrocessos ambientais durante o governo.
“A imprensa local da Amazônia repercutiu amplamente e criticamente o discurso de Bolsonaro.”Fake. A maioria dos jornais apenas reproduziu o discurso, sem análise crítica ou vozes locais.

Autor@s do artigo

Alda Costa: aldacristinacosta@gmail.com

Jússia Ventura: jussiac@gmail.com

Ivana Oliveira: ivana.professora2020@gmail.com

Raul Ventura Neto: raulvneto@ufpa.br Orcid